Se eu não fosse brasileira não sairia de lá', desabafa universitária que passou 21 dias presa pelo Exército Sírio

“Se eu não fosse brasileira não sairia de lá”, lamenta a jovem brasileira Juliana Cruz, que ficou 21 dias presa em uma cela com 45 pessoas e...

18893218_1379995955425555_5954643893995178499_n-(1)(1)“Se eu não fosse brasileira não sairia de lá”, lamenta a jovem brasileira Juliana Cruz, que ficou 21 dias presa em uma cela com 45 pessoas em um presídio de Damasco, capital da Síria. Sob ameaças do Exército do Presidente/Ditador Bashar Al-Assad, a universitária e servidora da Associação Mato-Grossense de Municípios, narra com exclusividade ao Olhar Direto o drama que sofreu ao descobrir a realidade de uma guerra que beira 10 anos. A jovem lamenta as especulações da imprensa e agradece os esforços da diplomacia brasileira.

“É tanta coisa absurda que ouço na imprensa”, desabafou Ju Cruz, como é conhecida nas redes sociais. Jovem, natural de Porto Velho – Rondônia e estudante de direito conta que iniciou sua relação com a Síria quando conheceu pela internet o drama dos civis que vivenciam a guerra travada entre o ditador (presidente) Bashar Al-Assad, os Estados Unidos e as forças rebeldes e o Estado Islâmico (ISIS). “Minha história é de muito antes, decidi ajudar aquelas pessoas por meio de uma campanha que fiz na faculdade. Na AMM, todos lá sabem disto, eu arrecadava fundos para ajudar as pessoas de lá, nas cirurgias, dos feridos”, conta.

Ao longo de sua jornada em prol das vítimas da guerra, conheceu Sheraz-Re, com quem desenvolveu amizade. “Somente amizade, nunca tive nada com ele, nunca fui para a Síria para me encontrar com alguém”, afirma Juliana, que lamenta as especulações da imprensa, que apontam para um suposto relacionamento amoroso.

Pouco se sabe sobre Sheraz-Re, das redes sociais ele se apresenta como jovem natural de Damasco, capital síria, que atua como “fedayeen” (guerrilha suicida) em prol do Exército da Síria. Em suas fotos, faz questão de ostentar armas, carros e dinheiro. Em outra, aparece segurando uma AK47, com a seguinte legenda: “Como é que vocês vivem aqui? Não estamos a viver, só estamos a adiar a morte, até que a vida nos assente”.

“Se eu soubesse da realidade de lá, nunca teria ido”, lamenta Juliana, que hoje se encontra em segurança, em Cuiabá. Seu voo, realizado pela empresa Avianca em parceria com a Turkish Airlines chegou às 7h20 desta quinta-feira (7). A jovem chorou ao encontrar a família e revelou ter passado mal durante a viagem, que fez só.

Cruz ficou em terras sírias por cerca de um mês, onde hospedou-se na casa da família de Sheraz-Re. A jovem afirma ter sido bem recebida. “Eles são membros do Exército. Chegaram a tirar uma licença de 15 dias para me levar às cidades, para que eu pudesse conhecer o país”.

Inesperadamente: o drama. “Alguém provavelmente quis ganhar moral com o chefe do Exército, trazendo informações”. Em língua árabe, que não domina, Juliana Cruz foi informada de que estaria em poder do Exército Sírio e que seria conduzida para um presídio até o fim das investigações quanto à natureza de sua viagem.

“Fiquei 21 dias em poder deles, eu bati recorde, fiquei em uma cela com 45 pessoas”, narra. Questionada pela reportagem sobre o que teriam lhe inquirido antes do momento da prisão, a jovem nada afirma. “Eles tem as regras deles, não tem essa de direitos humanos, eles prendem antes de interrogar”.

Enquanto em cárcere, onde Juliana Cruz afirma ter sido relativamente bem tratada, as forças armadas do país investigavam a natureza de sua viagem, isto é, se seus interesses eram, efetivamente, turísticos. “A suspeita era que eu fosse talvez algum tipo de informante”, avalia.

Graças aos esforços do diplomata brasileiro Bruno Rizzi Razente, Secretário diretamente ligado ao Embaixador Brasileiro na Síria, Achilles Emilio Zaluar Neto, com quem Olhar Direto trocou informações, a brasileira foi resgatada. “Se não fossem eles, eu tava lá até agora. Se eu não fosse brasileira eu não sairia de lá”.
Ainda atordoada pelo drama sofrido, a universitária não tem palavras para expressar o pavor que sentiu. “Se alguém quiser entender, leiam ‘Dias de Inferno na Síria’, do jornalista Klester Cavalcanti”.

A obra narra em primeira pessoa a experiência de um projeto de reportagem frustrado. O profissional também foi preso pelas tropas oficiais, no ano de 2011, foi torturado e encarcerado por seis dias numa cela que dividia com mais 20 detentos. O relato foi escrito ainda na prisão e tornou-se livro no Brasil, sendo publicado em 2012. Ganhou o prêmio “Jabuti” em 2013. "Aquela é a realidade que eu vivi".

Em Cuiabá, livre da opressão do Estado e do Exército Sírio, Juliana Cruz trava outra guerra: contra o machismo e por sua imagem. “Eu nunca tive nada com alguém de lá, Deus me livre, foi somente amizade”, insiste a jovem, à despeito das especulações respeitosas proferidas nas redes sociais, por populares.

A jovem pede respeito. “Eu li tudo o que publicaram do caso na imprensa, é um absurdo. Ainda nem tive tempo de ir para casa, para se ter uma idéia, mas lamento o que tem sido dito a respeito do caso”. 

O Itamaraty afirmou ao Olhar Direto que a Embaixada do Brasil em Damasco acompanha o caso da brasileira e mantém contato com a família e com autoridades locais. A assessoria do Ministério das Relações Exteriores ainda disse que de acordo com a Lei de Acesso à informação e em respeito à privacidade da nacional brasileira, não está autorizada a fornecer informações pessoais sobre o caso.

Ao Olhar Direto, o embaixador brasileiro na Síria, Achilles Zaluar, que estava de férias durante a reportagem, comemorou o sucesso do resgate. Viagens de brasileiros para a Síria são expressamente contra-indicados desde 2014.

FONTE: OLHAR DIRETO

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Se eu não fosse brasileira não sairia de lá', desabafa universitária que passou 21 dias presa pelo Exército Sírio
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